Abstract:
A presente tese investiga a formação histórica das redes de colaboração cultural e
educacional entre Brasil e Estados Unidos ao longo do século XX, a partir da análise
crítica dos acervos institucionais vinculados a centros binacionais, escolas
internacionais e programas de intercâmbio. Ao problematizar os discursos de
cooperação e as narrativas de benevolência diplomática, a pesquisa tensiona os
arquivos não como depósitos estáticos de memória, mas como campos discursivos
em permanente disputa simbólica. Nesse contexto, são examinadas as tramas de
apagamento, silenciamento e legitimação que atravessaram a constituição dessas
redes, com especial atenção às estratégias de difusão cultural norte-americana no
contexto da Guerra Fria. A investigação se estrutura em torno do conceito de
curadoria do apagamento, forjado como categoria analítica para compreender os
mecanismos seletivos que condicionaram o que foi registrado, omitido ou obliterado
nos discursos institucionais. A noção de arquivo vivo é empregada para indicar a
natureza dinâmica e tensionada dos registros documentais, nos quais o silêncio
constitui uma operação discursiva. Metodologicamente, a pesquisa articula leitura
crítica, análise relacional e visualização de dados por meio de ferramentas das
humanidades digitais. As fontes primárias incluem relatórios, livros comemorativos,
correspondências diplomáticas e planilhas sistematizadas no banco de dados
Memória Social BRA–EUA. Os resultados revelam padrões de apagamento
institucional, a centralidade dos centros binacionais como dispositivos de soft power
e a constituição de elites simbólicas por meio da circulação de saberes e currículos
internacionais. A tese propõe, assim, uma gramática de leitura crítica para os
arquivos da diplomacia cultural, ao reinscrever os espectros da memória nos
interstícios da brasilidade forjada sob mediações hemisféricas. Ao conjugar rigor
historiográfico, escuta crítica e experimentação metodológica, a pesquisa contribui
para o aprofundamento do campo das humanidades digitais e da memória social, ao
evidenciar as camadas de silêncio que sustentam as narrativas de cooperação
internacional.