Abstract:
Introdução: A população imigrante enfrenta múltiplos desafios no acesso aos
serviços de saúde, frequentemente relacionados a barreiras estruturais, culturais e
linguísticas. No Brasil, ainda são escassos os estudos que investigam as
necessidades não atendidas em atenção primária à saúde (APS) entre imigrantes,
especialmente em contextos municipais. Objetivo: Verificar a prevalência de
necessidades não atendidas em atenção primária à saúde entre imigrantes
residentes na cidade de Canoas, Rio Grande do Sul. Métodos: Trata-se de um
estudo transversal, de abordagem quantitativa, realizado na sede do Projeto Social
Caminho do Bem (PSCB), instituição vinculada à Pastoral Unilasalle. A coleta de
dados ocorreu durante oficinas realizadas entre abril e junho de 2025, com
imigrantes convidados a participar voluntariamente. Foram incluídos indivíduos com
18 anos ou mais, residentes em Canoas-RS, e excluídos aqueles com déficit
cognitivo impeditivo, recusa em assinar o termo de consentimento ou tempo de
residência no Brasil inferior a três meses. Os participantes responderam a um
questionário sociodemográfico e a um instrumento baseado em Bajgain et al. (2021)
para avaliar a presença de necessidades não atendidas em APS. Foram analisadas
as razões para a falta de atendimento — classificadas em acessibilidade,
disponibilidade e aceitabilidade — e os impactos pessoais e econômicos
decorrentes. Resultados: Participaram 20 imigrantes, com idade média de 34,1 ±
10,6 anos, majoritariamente do sexo feminino (60%) e com ensino médio completo
(65%). Todos relataram ter experimentado, nos últimos 12 meses, pelo menos uma
necessidade de saúde não atendida. Os serviços mais frequentemente mencionados
foram encaminhamento para médico especialista (30%), exames laboratoriais (15%)
e atendimento odontológico (15%). As principais barreiras de acessibilidade
incluíram custo (50%) e distância (38,9%); de disponibilidade, o tempo de espera
prolongado (38,9%) e indisponibilidade no momento necessário (33,3%); e de
aceitabilidade, a percepção de atendimento insuficiente (27,8%) e a dificuldade de
comunicação linguística (22,2%). Não foram observadas associações significativas
entre idade ou tempo de residência no Brasil e os tipos de barreiras relatadas (p >
0,05). Entre os impactos pessoais, destacaram-se prejuízos à saúde mental (30%) e
piora do estado geral (25%); entre os impactos econômicos, aumento das despesas
(30%) e uso de medicamentos sem prescrição (25%). Também não houve
associação significativa entre idade ou tempo de residência e os tipos de impacto (p
> 0,05). Conclusão: Todos os imigrantes participantes apresentaram alguma
necessidade de saúde não atendida, com predomínio de barreiras ligadas à
acessibilidade e disponibilidade dos serviços. Os resultados indicam fragilidades na
integração da população imigrante aos serviços de atenção primária à saúde e
reforçam a necessidade de políticas públicas que ampliem o acesso equitativo,
considerando as dimensões culturais, linguísticas e socioeconômicas.